Celular está nas mãos de praticamente todo mundo o tempo inteiro

Celular está nas mãos de praticamente todo mundo o tempo inteiro
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Eu acordo e, antes de entrar no banho, leio algumas das mensagens que recebi durante a noite. Respondo algumas e sigo a minha rotina matinal lendo as notícias pela tela do celular enquanto como alguma coisa.

Chamo o elevador, desço a rua de casa a pé e vou até o metrô. No caminho, tento recarregar o bilhete único, cartão dos transportes públicos de São Paulo, pelo celular e não consigo concluir a transação. Sem entender o problema e culpando o aplicativo, pego a fila da bilheteria. Há algum tempo não enfrentava a burocracia para comprar uma passagem. Para dizer a verdade, nem me lembrava da última vez em que tive um bilhete de papel na carteira.

Assim que meu celular se conecta ao Wi-Fi do trabalho, uma sinfonia de alertas de emails e mensagens me chama a atenção. Dessa forma que descobri que tinha estourado a franquia do meu plano de dados da operadora. Como faltavam poucos dias, decidi encarar o desafio e seguir a vida sem o 4G.

Durante o trabalho, não me lembro que estou sem internet no celular, mas é só pisar na calçada para perceber que o aparelho no bolso não tem nenhuma utilidade. Nos primeiros dias fico incomodado com a ideia de alguém tentar falar comigo sobre um assunto urgente e eu não ficar sabendo. Por isso, tenho a sensação constante de que o aparelho vibra no bolso.

Fazendo ligações

Sem a possibilidade de receber e enviar mensagens pelo WhatsApp, tenho de recorrer ao uso mais tradicional de um celular, porém menos usado, e fazer ligações. Foi assim que percebi que as pessoas não sabem mais atender a uma chamada. Ligo para um amigo para marcar um ponto de encontro e ele demora para atender. Eu insisto mais um pouco e, antes mesmo de um “alô”, ele pergunta por que estou ligando .

Fazer uma ligação pelo celular é algo cada vez mais raro

Fazer uma ligação pelo celular é algo cada vez mais raro
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Se depender da minha memória, eu sou absolutamente incapaz de ligar para alguém. Um recurso pouco valorizado, mas fundamental em qualquer aparelho, é a agenda de contatos. Eu até abria alguns contato só para admirar o telefone e perceber como não fazia a menor ideia daquela sequência de números.

Eu nunca liguei muito em me conectar ao Wi-Fi de lugares públicos. Por trabalhar com tecnologia, sempre acho um risco usar essas redes abertas e sempre evito. Sem a possibilidade de usar o 4G, adquiri o hábito de perguntar qual a rede e a senha para visitante. Além disso, precisei aprender a usar até o último segundo essas conexões quando precisava pedir um carro por aplicativo. O app até funciona sem a internet móvel durante a corrida, mas antes é preciso encontrar um motorista.

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Não ter internet me fez ficar mais atento ao trajeto que estou fazendo. Em geral, entro no metrô e só reparo que estou próximo do meu destino porque muitos passageiros se levantam para descer também. Sem a possibilidade de consultar o celular, percebo o quanto todo mundo está preso às telas, inclusive eu.

Vida fora do celular

Com o celular longe das mãos, interagi mais com as pessoas na rua, algo pouco frequente em cidades como São Paulo. No metrô, percebo que uma senhora está falando ao celular com a lanterna ligada, sabendo da aflição de ficar sem bateria ao longo do dia, chamo e aviso sobre a luz na parte traseira do aparelho.

Celulares nos transportes públicos são uma unanimidade

Celulares nos transportes públicos são uma unanimidade
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Outro dia, durante as semifinais dos estaduais, eu estava em um lugar onde não era possível usar o Wi-Fi e nenhuma televisão estava próxima. Decido ir ao ponto de ônibus e busco alguém vendo o jogo ou acompanhado o minuto a minuto pelo celular. Faço sinal, subo, passo a catraca e sento, faço tudo isso olhando para os lados tentando encontrar alguém com o mesmo interesse que eu.

Percebo que um homem próximo de mim está consultando o resultado. Um pouco tímido, puxo assunto no melhor estilo conversa de elevador e pergunto quanto foi a partida. Recebo a resposta e a conversa é encerrada por um fone de ouvido. Sigo o caminho observando a paisagem da Marginal Pinheiros pelas janelas do ônibus meio vazio.

Apesar de ficar preocupado de alguma coisa urgente acontecer, com o tempo me acostumo e só leio as mensagens que recebo em trajetos quando chego no destino, em geral minha casa ou a redação do R7.

Eu recebi algumas reclamações por demorar demais para responder e algumas vezes tive que recuperar um assunto que já tinha acabado em algum grupo. Em geral, só lia tudo e não respondia nada ao perceber que nada de urgente aconteceu em nenhum momento.

No começo não ter internet no celular é algo estranho, mas acho que é possível fazer um detox digital de vez em quando. O aparelho é muito útil, mas talvez a maior parte do tempo ele seja usado só para ocupar as mãos ou distrair em situações chatas do dia a dia.

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